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| Malinowski |
Quais as semelhanças entre um dos mais famosos músicos da história e uma tribo em algum canto do Pacífico? Podem até não ser muitas, mas, ambos foram “objetos” de produções literárias que marcaram os ramos de estudo e produção para o qual foram feitos. Isto é, o Jornalismo, ou melhor, o Novo Jornalismo, e a Antropologia.
Você já leu mais de uma vez aqui no blog que a antropologia e o jornalismo têm bastante coisa em comum. Mais do que isso, que um pode auxiliar o outro. Em especial, a Antropologia e os conceitos antropológicos podem ser ferramentas fundamentais para uma boa prática jornalística, certo? Mas, e daí? O que faz a relação entre o Novo Jornalismo (New Jornalism, no inglês) e a Ciência da Antropologia ser especial?
Bom, é justamente a relação entre o famoso músico, nada menos que Frank Sinatra, e o fenômeno da Kula citado no primeiro parágrafo que exemplifica a peculiaridade desta relação.
Sinatra foi o tema de um dos primeiros e mais famosos textos do Novo Jornalismo (Frank Sinatra está resfriado).
E, a Kula, que é um sistema de trocas circular que influenciava a vida dos nativos de uma tribo, foi tema daquele que é apontado como um dos estudos antropológicos que modificaram a forma de se fazer antropologia, inaugurando a metodologia da Observação Participante, método base para os estudos realizados hoje.
Mas, antes de falar mais sobre isso, vamos conhecer um pouco mais do Novo Jornalismo e da Observação Participante de Malinovisk:
Antes de mais nada, você deve estar se perguntando o que é esse tal de Novo Jornalismo. Seria uma forma nova de se fazer jornalismo? O jornalismo feitos nos dias de hoje. Por isso o fato de ser 'novo'? Pois, não se engane com a palavra novo. A corrente do jornalismo chamada de “Novo Jornalismo” surgiu nos EUA em meados dos anos 60, como uma alternativa ao estilo de jornalismo objetivo e distanciado praticado comumente. Nela a reportagem deixa de ser apenas um texto a mostrar os fatos ocorridos. Torna-se quase um mergulho no assunto abordado, com um profundo trabalho de entrega, apuração e preocupação estilística de texto, vindo a ser como um obra literária de não ficção.
Para que assim seja feito o Novo Jornalismo, é necessário ao profissional uma maior convivência com aquilo de que tratará, um acompanhamento muitas vezes diário, prolongado, para que sejam captadas expressões, costumes, que não seriam compreendidos com apenas uma breve conversa.
Gay Talese define o Novo Jornalismo:
"O novo Jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. É, ou deveria ser, tão verídico, como a mais exata das reportagens, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo. O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com frequência, ou que assuma o papel de observador imparcial."
Pela fala de Talese, já podemos buscar uma forma muito similar a praticada por pesquisadores, antropólogos. Ou mesmo, com um exemplo ainda mais direto e prático, aquele executado por Bronislaw Malinowski. O pesquisador desenvolveu um método de investigação de campo, na qual executou inicialmente na Austrália com os povos Mailu e das Ilhas Trobriand. Neste, era necessário uma grande interação do pesquisador com o grupo, a comunidade estudada.
Para escrever o perfil “Frank Sinatra está resfriado”, Talese ficou três meses acompanhando a rotina que cercava “Blue Eyes”, como o astro ficou conhecido. Mais do que isso, o repórter conversou, entrevistou e acompanhou os mais variados profissionais ligados ao cantor. Conversou, por exemplo, com parentes, agentes, maquiadores e amigos. Em seu texto, relatou sua experiência passo, inclusive sua forma de apuração. Todas as noites ele anotava tudo o que via, escutava e observava ao longo do dia, registrando cada detalhe e tudo que de alguma forma fosse relevante. Assim, após seu período “cobrindo” “The voice”, esse havia consegui um amplo material para produzir sua matéria.
A estratégia é semelhante à de Malinowski. Só que o antropólogo passou temporadas bem maiores que Gay Talese, um ano e meio, dois, e se isolou completamente de seu “mundo original”, evitando ter qualquer contato com fatos da Europa ou mesmo homens brancos que habitassem regiões próximas de onde estava. Malinowski também passava o dia observando todos os elementos e particularidades do povo que estudava e à noite registrava suas impressões.
Uma pesquisa de campo, que assim requer tamanha entrega por parte do pesquisador, de forma a este se colocar a interagir com aquela determinada cultura, afastando-se de tudo que faz referência ao seu próprio estilo de vida. Para dessa forma, conseguir observar o grupo estudado, seu objeto de pesquisa, de forma livre de preconceitos, através dos olhos daquela própria comunidade. Semelhante, não? Muito nos lembra do papel do profissional no Novo Jornalismo, um papel ativo e interativo, de alguém que entra em contato com o pesquisado, de forma a tentar compreender a forma como aconteceram os fatos.
Pois é aqui que encontramos nosso ponto em comum. Nomes de destaque do Novo jornalismo como Tom Wolf, Truman Capote, Robert Christgau e o próprio Gay Talese talvez não tenham se inspirado em Malinowski. Porém, certamente, o método antropológico e inspirações desta ciência humana estão presentes no modo de apuração e pesquisa deste jornalista. Com certeza a precisão de descrição e de apuração é um objetivo nos dois ramos. Mais do que isso, dois elementos contribuem para a aproximação entre Novo Jornalismo e Antropologia, o tratar de pessoas e suas relações, buscando transmitir globalmente o que foi visto e ainda ter como ferramenta principal para difundir suas produções a palavra escrita. Ambos são formas de conhecimento baseadas num trabalho artesanal que consiste em ir a campo com o objetivo de apreender uma realidade a ser transformada em registro verbal, a qual será consultada posteriormente por leitores que não estiveram lá.
Priscila Motta e Ronaldo Rodrigues














