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Mídia e cultura geek: da margem ao mainstream

A relação entre mídia e tribos urbanas e a ascensão da cultura geek nos meios de comunicação.

Pensando o Jornalismo Internacional: o mundo é etnocêntrico

O Jornalismo dispõe de vários segmentos dentre os quais dois se destacam pela forte relação com a Antropologia: o Cultural e o Internacional. Como o jornalista lida essas coberturas?

Quanto vale o seu lugar? os valores-notícia e o etnocentrismo

Você já parou para pensar em como os jornalistas escolhem o que é notícia? Como em meio de uma redação fervendo e um dia de trabalho exaustivo os profissionais podem parar para deliberar sobre o que entra no seu jornal? Para isso existem truques: os valores-notícia.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Novo jornalismo e antropologia: semelhanças e diferenças

Malinowski


 Quais as semelhanças entre um dos mais famosos músicos da história e uma tribo em algum canto do Pacífico? Podem até não ser muitas, mas, ambos foram “objetos” de produções literárias que marcaram os ramos de estudo e produção para o qual foram feitos. Isto é, o Jornalismo, ou melhor, o Novo Jornalismo, e a Antropologia.
Você já leu mais de uma vez aqui no blog que a antropologia e o jornalismo têm bastante coisa em comum. Mais do que isso, que um pode auxiliar o outro. Em especial, a Antropologia e os conceitos antropológicos podem ser ferramentas fundamentais para uma boa prática jornalística, certo? Mas, e daí? O que faz a relação entre o Novo Jornalismo (New Jornalism, no inglês) e a Ciência da Antropologia ser especial?
Bom, é justamente a relação entre o famoso músico, nada menos que Frank Sinatra, e o fenômeno da Kula citado no primeiro parágrafo que exemplifica a peculiaridade desta relação.
Sinatra foi o tema de um dos primeiros e mais famosos textos do Novo Jornalismo (Frank Sinatra está resfriado).
E, a Kula, que é um sistema de trocas circular que influenciava a vida dos nativos de uma tribo, foi tema daquele que é apontado como um dos estudos antropológicos que modificaram a forma de se fazer antropologia, inaugurando a metodologia da Observação Participante, método base para os estudos realizados hoje.
Mas, antes de falar mais sobre isso, vamos conhecer um pouco mais do Novo Jornalismo e da Observação Participante de Malinovisk: 
Gay Talese


Antes de mais nada, você deve estar se perguntando o que é esse tal de Novo Jornalismo. Seria uma forma nova de se fazer jornalismo? O jornalismo feitos nos dias de hoje. Por isso o fato de ser 'novo'? Pois, não se engane com a palavra novo. A corrente do jornalismo chamada de “Novo Jornalismo” surgiu nos EUA em meados dos anos 60, como uma alternativa ao estilo de jornalismo objetivo e distanciado praticado comumente. Nela a reportagem deixa de ser apenas um texto a mostrar os fatos ocorridos. Torna-se quase um mergulho no assunto abordado, com um profundo trabalho de entrega, apuração e preocupação estilística de texto, vindo a ser como um obra literária de não ficção.
            Para que assim seja feito o Novo Jornalismo, é necessário ao profissional uma maior convivência com aquilo de que tratará, um acompanhamento muitas vezes diário, prolongado, para que sejam captadas expressões, costumes, que não seriam compreendidos com apenas uma breve conversa.
            Gay Talese define o Novo Jornalismo:
            "O novo Jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. É, ou deveria ser, tão verídico, como a mais exata das reportagens, buscando embora uma verdade mais ampla que a possível através da mera compilação de fatos comprováveis, o uso de citações, a adesão ao rígido estilo mais antigo. O novo jornalismo permite, na verdade exige, uma abordagem mais imaginativa da reportagem e consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com frequência, ou que assuma o papel de observador imparcial."
        Pela fala de Talese, já podemos buscar uma forma muito similar a praticada por pesquisadores, antropólogos. Ou mesmo, com um exemplo ainda mais direto e prático, aquele executado por Bronislaw Malinowski. O pesquisador desenvolveu um método de investigação de campo, na qual executou inicialmente na Austrália com os povos Mailu e das Ilhas Trobriand. Neste, era necessário uma grande interação do pesquisador com o grupo, a comunidade estudada.
Para escrever o perfil “Frank Sinatra está resfriado”, Talese ficou três meses acompanhando a rotina que cercava “Blue Eyes”, como o astro ficou conhecido. Mais do que isso, o repórter conversou, entrevistou e acompanhou os mais variados profissionais ligados ao cantor. Conversou, por exemplo, com parentes, agentes, maquiadores e amigos. Em seu texto, relatou sua experiência passo, inclusive sua forma de apuração. Todas as noites ele anotava tudo o que via, escutava e observava ao longo do dia, registrando cada detalhe e tudo que de alguma forma fosse relevante. Assim, após seu período “cobrindo” “The voice”, esse havia consegui um amplo material para produzir sua matéria.
     A estratégia é semelhante à de Malinowski. Só que o antropólogo passou temporadas bem maiores que Gay Talese, um ano e meio, dois, e se isolou completamente de seu “mundo original”, evitando ter qualquer contato com fatos da Europa ou mesmo homens brancos que habitassem regiões próximas de onde estava. Malinowski também passava o dia observando todos os elementos e particularidades do povo que estudava e à noite registrava suas impressões.     
     “Os princípios do método podem ser agrupados em três itens principais: em primeiro lugar, como é óbvio, o investigador deve guiar-se por objetivos verdadeiramente científicos, e conhecer as normas e critérios da etnografia moderna; em segundo lugar, de providenciar boas condições para o seu trabalho, o que significa, em termos gerais, viver efetivamente entre os nativos, longe de outros homens brancos; finalmente, de recorrer a um certo número de métodos especiais de recolha, manipulando e registrando as suas provas.” (Bronislaw Malinowski – Os Argonautas do Pacífico Ocidental).
   Uma pesquisa de campo, que assim requer tamanha entrega por parte do pesquisador, de forma a este se colocar a interagir com aquela determinada cultura, afastando-se de tudo que faz referência ao seu próprio estilo de vida. Para dessa forma, conseguir observar o grupo estudado, seu objeto de pesquisa, de forma livre de preconceitos, através dos olhos daquela própria comunidade. Semelhante, não? Muito nos lembra do papel do profissional no Novo Jornalismo, um papel ativo e interativo, de alguém que entra em contato com o pesquisado, de forma a tentar compreender a forma como aconteceram os fatos.
Pois é aqui que encontramos nosso ponto em comum. Nomes de destaque do Novo jornalismo como Tom Wolf, Truman Capote, Robert Christgau e o próprio Gay Talese talvez não tenham se inspirado em Malinowski. Porém, certamente, o método antropológico e inspirações desta ciência humana estão presentes no modo de apuração e pesquisa deste jornalista. Com certeza a precisão de descrição e de apuração é um objetivo nos dois ramos. Mais do que isso, dois elementos contribuem para a aproximação entre Novo Jornalismo e Antropologia, o tratar de pessoas e suas relações, buscando transmitir globalmente o que foi visto e ainda ter como ferramenta principal para difundir suas produções a palavra escrita.  Ambos são formas de conhecimento baseadas num trabalho artesanal que consiste em ir a campo com o objetivo de apreender uma realidade a ser transformada em registro verbal, a qual será consultada posteriormente por leitores que não estiveram lá. 


                                                                                                        Priscila Motta e Ronaldo Rodrigues

E aí? Você tem cultura?: fala-povo

Melhor que teorizar a palavra cultura, é perguntar as pessoas sobre o que elas pensam (ou não sobre isso).  Para que isso acontecesse, fomos as ruas fazer três questionamentos a diversos tipos de pessoas:
- Você tem cultura?
- E, o que você pensa sobre a sua cultura?
- Qual o significado da palavra cultura para você?
Perguntas que parecem simples, mas que segundo o antropólogo Roberto da Matta possuem dois significados: do senso comum e da antropologia. Como explicado no texto de introdução, o primeiro corresponde a inteligência, nível intelectual de alguém com relação a outra pessoa. Já o segundo, é apresentado como algo coletivo, produzido por um grupo, como por exemplo a cultura brasileira, ou então a cultura dos índios, dos negros, enfim. Vamos conferir se da Matta estava certo.


Podemos observar neste “fala povo” que apenas uma pessoa entrevistada comentou sobre o segundo significado definido pelo antropólogo Roberto da Matta. Não importa a classe social, o nível de estudo de cada um, o senso comum ainda é o mais conhecido pelas pessoas.  E, infelizmente, é ele quem gera certo preconceito ao se falar do significado antropológico. Pois ao perguntarem se a cultura do funk era melhor ou pior que a cultura clássica, o entrevistado afirmou ser melhor, será que realmente temos como definir isso?
Entretanto, podemos perceber que qualquer ser humano (a não ser os pesquisadores, pelo menos deveriam) apresenta uma visão etnocêntrica, ou seja, observa a cultura do outro com o olhar da sua própria cultura o que gera estranhamento, afastamento, consequentemente, preconceito. 

                                                                                                                     Paula Pontes e Elson Souza

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entrevista com a professora Sylvia Moretzsohn

Professora Sylvia Moretzsohn
         Antes do dia 13 de novembro deste ano, os grandes meios de comunicação do país já sabiam qual seria a principal pauta do domingo: a ocupação da Rocinha. Desde 2008, quando foi instalada no morro Santa Marta a primeira Unidade de Policia Pacificadora (UPP) do Rio de Janeiro, a imprensa passou a explorar mais sobre as favelas cariocas. Após a extensa cobertura pelos jornais da ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, a imprensa dedicou-se mais ainda na cobertura da ocupação pelo Estado da maior favela da América Latina que é a Rocinha. Para Sylvia Moretzsohn, professora de jornalismo da Universidade Federal Fluminense, uma coisa permanece a mesma na cobertura jornalística sobre as UPPs: a ausência de uma problematização sobre essa nova política de segurança adotada pelo estado do Rio de Janeiro. Para ela, as abordagens feitas sobre a cultura da população da favela não passa de uma forma de etiquetar: “Posso dizer que o jornalismo costuma levar seus preconceitos quando vai cobrir fatos relacionados a esses locais. É uma visão etnocêntrica”. Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro  e membro do Conselho editorial da revista Discursos Sediciosos - crime, direito e sociedade, do Instituto Carioca de Criminologia, Sylvia também fala nesta entrevista sobre os desafios do jornalista para evitar os estereótipos e preconceitos, muitas vezes, enraizados pelos grandes meios de comunicação.

1.    Uma das últimas grandes coberturas dos meios de comunicação foi a ocupação da Rocinha. Como você vê a abordagem que comumente se faz desses acontecimentos?
Eu acho que, nessa cobertura da Rocinha, ficou muito evidente o apoio às ações policiais relacionadas à política de implantação das UPPs, da mesma forma como antes a imprensa apoiava a política de confronto. A “ocupação pacificadora” tem a ver com o circuito olímpico e favorece a especulação imobiliária, sem dúvidas. Alguma coisa está estranha nessa guinada nas políticas de segurança e nunca nenhum jornal se preocupou em problematizar a questão. No caso recente da Rocinha, isso ficou evidente: o que mais se via eram termos como: luta do bem contra o mal, ocupação de território, devolução de território. Se houvesse jornalismo de fato, haveria uma preocupação com o contraditório. Quando se conversa com moradores desses locais, eles contestam a melhoria trazida pelas UPPs, quando comparadas com o domínio do “poder paralelo”, que é um termo que particularmente eu não gosto. Nenhum poder desses se estabelece sem articulação com o Estado, através de mecanismos como a corrupção policial. A favela é complexa: não é só o que traz o “Central da Periferia” nem, por outro lado, só o que mostra o “Meninos do Tráfico”. A favela é uma coisa e outra. E os jornais não têm conseguido captar isso, o que tem a ver com a capacidade do jornalista e com os interesses da imprensa em mexer na lógica dual, binária, típica do senso comum, que não vem hoje.

     Pode ter havido uma construção jornalística em que não foram levadas em conta a realidade e a cultura dos moradores?
Quem cobre a favela, não a conhece, na maioria dos casos. O que, de certa forma, é bom porque gera um distanciamento interessante. O problema é que essas pessoas não têm, não querem ter ou não podem ter - graças às orientações editoriais - a possibilidade de enxergar a complexidade do mundo. E daí se reafirmam os estereótipos.
Outro problema é pensar na “cultura da favela”. A favela está totalmente entrelaçada na cidade. A mídia muitas vezes enquadra as pessoas em categorias artificiais. A favela em geral é urbana. É um território integrado, até mesmo pela geografia do Rio. Mas, falar em “cultura da favela” é muito relativo. Acho artificial, não passa de uma forma de etiquetar. As pessoas de lá convivem em vários ambientes sociais e absorvem muito deles, reproduzindo-os em seu cotidiano. Mas posso dizer que o jornalismo costuma levar seus preconceitos quando vai cobrir fatos relacionados a esses locais. É uma visão etnocêntrica.

         Essa atitude da mídia poderia ser diferente?
A cobertura poderia ser diferente sim, mas é preciso ter em mente que são fortes os interesses das empresas de mídia. Eu, particularmente, fico agoniada pensando: “Onde vou ler algo que me satisfaça?” Esse mesmo secretário de segurança era partidário da política de confronto e, de repente, adota a política de evitar vítimas, de fazer uma limpeza. É preciso se fazer algumas perguntas: Como a polícia enxerga o morador do morro? Da mesma forma que alguém do “asfalto”? Qual o papel histórico da polícia? Por que a polícia na esquina da minha casa está lá pra proteger a mim e a meus bens e a polícia no morro está lá para vigiar e punir? A relação com os policiais varia de acordo com os diferentes espaços sociais.

      Qual a principal reflexão sobre a polarização bem vesus mal na cobertura das ocupações da polícia nos morros cariocas?
Existe a ideia de que os favelados são potencialmente perigosos. É preciso entender, porém, que a polícia em si não resolve os problemas, já que se trata de uma questão de vulnerabilidade social muito mais ampla. A questão é que estamos inseridos numa esfera de despolitização ampla e a mídia se envolve mais com a técnica do que com a reflexão. A velocidade de produção e a concorrência empresarial ajudam a reproduzir os estereótipos, mas é também uma questão de formação do jornalista.

  Qual seria a importância de o jornalista buscar uma atitude de negação de preconceitos e estereótipos na sua prática profissional?
O jornalista que se propõe a se despir dos preconceitos certamente irá prestar um serviço de muito mais qualidade à sociedade. Os desafios são, sobretudo, o confronto com os interesses dos conglomerados de informação e a necessidade de fazer um esforço intelectual, o que nem sempre é tão fácil.


                                                                                                     Sandra Mara Amancio e Mário Cajé

Quanto vale o seu lugar? os valores-notícia e o etnocentrismo

            Você já parou para pensar em como os jornalistas escolhem o que é notícia? Como em meio de uma redação fervendo e um dia de trabalho exaustivo os profissionais podem parar para deliberar sobre o que entra no seu jornal? Para isso existem truques: os valores-notícia. Parâmetros definidos por grandes teóricos da comunicação e ensinados na faculdade ou no próprio ambiente de trabalho. Mas o que define esses valores e como afetam na percepção do mundo que o jornalismo cria?
            Vamos simplificar: os valores-notícia são como ferramentas que ajudam a grande fábrica “jornalismo” a escolher as informações mais relevantes. O fato é que esses elementos se tornaram imprescindíveis desde que o jornalista começou a lutar contra o tempo. É, amigos, o tempo, para esses profissionais, é o pior inimigo do senso crítico. Por ter que apurar tudo cada vez mais rápido, para dar a informação primeiro, o jornalista passou a usar os valores-notícia como regras básicas para saber o que pôr ou não no seu jornal. Então, de maneira cada vez mais mecânica, os fatos só precisam se encaixar em uma (se for em mais de uma então, é capa!) dessas condições. Como exemplo, citaremos alguns desses níveis de noticiabilidade, segundo o teórico da comunicação Mauro Wolf:


I - O grau e o nível hierárquico dos envolvidos no acontecimento noticiável
(WOLF, 1995, p. 180, grifo do autor), quanto mais envolvimento com pessoas,
instituições e países de elite o fato tiver, mais noticiável parece aos olhos do jornalista.

II - O impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional (idem, p. 181, grifo do
autor), as técnicas jornalísticas consideram significativo um fato que diz respeito ao
interesse do país. Mais comumente chamado de valor de proximidade, na linguagem
jornalística

III - Quantidade de pessoas que o acontecimento (de fato ou potencialmente)
envolve (idem, p. 182-183, grifo do autor), a visibilidade é destacada como o principal
valor ao noticiar um acidente que envolva muitas pessoas.

            Então, até que fica bem fácil decidir o que é notícia, você não acha? Mas, se pararmos para pensar... Será justo um assassinato ser noticiado por ter acontecido na Inglaterra ou nos EUA, com uma pessoa mais ou menos importante, e um caso parecido não virar notícia por ter acontecido no Líbano com um agricultor? Impressiona o fato de algumas pessoas viverem a sua vida inteira de maneira digna e não terem o assassinato anunciado por não ser um político, ou por não ser inglês ou americano, ou por não ter morrido em uma chacina junto com outros 50 mil agricultores libaneses. Afinal, como classificar o quão importante é uma vida? E é justamente aí, que entra um conceito bastante conhecido na antropologia: o etnocentrismo, o julgar o “outro” através da própria “cultura”, estabelecendo valores e hierarquias.
            O fazer notícia está impregnado de etnocentrismo.E isso fica bem claro quando olhamos os valores-notícia, que são produtos e produtores de rótulos, de valorações sociais e culturais. Ora, se o jornalismo, dito quarto poder, se propõe a ser imparcial e mostrar os fatos que acontecem no mundo, com a base em valores-notícia cheios de etnocentrismo, só ajuda a perpetuar pré-conceitos. E é justamente assim que o agricultor morre sem ninguém saber. Afinal, quem se importa com o Oriente Médio, não é mesmo? Todos vivem morrendo por lá!
            Padrões valorativos como o do agricultor libanês podem ser encontrados aqui mesmo no nosso país. O Carnaval é um ótimo exemplo. É muito comum sair na grande mídia notícias e comentários sobre os desfiles do Rio de Janeiro e São Paulo. Todos os telejornais passam pedaços do desfile. Revistas de fofoca comentam das roupas das passistas e rainhas de bateria. Celebridades dão entrevistas sobre como manter o corpo sarado para a Avenida. Agora te perguntamos, caro leitor: cadê toda essa euforia quando o assunto é Parintins? O festival folclórico faz tão parte da cultura brasileira como o Carnaval. Ah... Esquecemos... Isso aí é da região Norte. Ninguém se importa com a região Norte. O Sudeste é muito mais importante. A cultura é mais rica! Parintins é digno somente de umas notinhas nos jornais. Quem sabe uma reportagem especial no Globo Repórter. Já dá até para ouvir a voz de Sérgio Chapelin ecoando em nossos ouvidos: “Parintins: O festival desconhecido por muitos que alegra o coração dos Amazonenses. O que há de tão especial nessa cultura tão distante? Não perca, hoje à noite, no Globo Repórter”.
            E é assim, que chegamos a uma conclusão um pouco pessimista, sabemos: o jornalismo mostra o mundo de poucos. Tira conclusões de que o interesse do público está nos países de elite, em celebridades, no Ocidente. Julga a partir do simples fato de escolher uma notícia. Valora pessoas, lugares e os lugares das pessoas no mundo. Afinal de contas, pra que se preocupar em pensar um pouco mais se é muito mais fácil manter o padrão que já está? Padrão este em que os seres humanos são escolhidos por dinheiro e por nacionalidade para estarem no topo noticiável por serem importantes. E a pergunta que fica é: importantes para quem?
                                                                                                    Bárbara Fernandes e Laís Carpenter

Mídia e cultura geek: da margem ao mainstream


É interessante como a indústria cultural norte-americana é capaz de influenciar no constructo simbólico que temos em relação a alguns espaços sociais. A escola é um bom exemplo disso. Conservadas as devidas proporções, é comum exportarmos muitos rótulos que assistimos nos filmes teen que retratam o universo da High School. No entanto, uma das questões valiosas é: Até que ponto essa segmentação tribal urbana é compatível com a nossa cultura? Vale a pena pensar sobre isso. Mas para além dessa questão, o fato é que o “valor” de cada uma dessas “tribos” é uma variante histórico-social. Um exemplo considerável é o dos nerds. Na “cadeia alimentar” das escolas americanas, esse grupo cultural sempre se viu estigmatizado e marginalizado até que, contemporaneamente, emergiu ao mainstream, aos holofotes.
É preciso ter cuidado com o próprio termo “tribo urbana”, já que ele é comumente usado para designar um grupo cultural que divergente em relação a um pretenso padrão de normalidade. Não passa, em última análise, de uma atitude arbitrária e etnocêntrica. O ideal é ter em mente que, na falta de uma palavra adequada, é possível lançar mão do termo enquanto metáfora, e não como categoria, como alerta o antropólogo José Guilherme Magnani.
Em geral, opta-se pelo mais simples: etiquetar como subcultura. Mas este não seria outro termo deficiente? O próprio sufixo confere inferioridade, juízo de valor, hierarquia e todo esse conjunto de sofismas que atentam contra uma atitude de relativismo cultural, defendida com propriedade pelo antropólogo Roberto da Matta em suas produções.
A mídia é, em grande medida, responsável pela forma como algumas comunidades culturais são valorizadas, enquanto outras não. Ser nerd na escola quase sempre foi sinônimo de ser rejeitado. Fechados num universo de games, RPG, cartoons, ficção científica e programação de computadores, os nerds viviam como coadjuvantes na escola. Graças à imersão recente na mídia de alguns ícones desse grupo cultural, um novo processo está em curso. Trata-se de um ciclo de valorização de elementos da cultura geek e nerd. E não há como entendê-lo minimamente sem associá-lo à forma como a indústria do entretenimento influencia os interesses das pessoas.
Um exemplo interessante é o de Mark Zuckerberg. O atual “Homem do Ano” da revista Time é a marca registrada do que muitos jovens querem ser. Sua trajetória reforça a ideologia de que, após uma adolescência de bullying, excentricidade e isolamento social, o nerd, quando adulto, será capaz de empreender e inovar, alcançando sucesso profissional e prestígio midiático. Na verdade, os exemplos são fartos: Steve Jobs, Bill Gates, Larry Page e Sergey Brin, etc. É tudo uma questão de vingança e que leva tempo. Mas vale a pena esperar e aturar a tortura de sempre ser o último a ser escolhido nas partidas de qualquer coisa.
Graças à terceira revolução industrial, o processamento de dados e as tecnologias da informação têm sido cada vez mais prestigiados, o que pode explicar em parte as alterações nesse jogo sociocultural. A busca acirrada e a luta ferrenha pela manutenção dos talentos por parte das empresas contemporâneas têm sido marcante na lei da oferta e procura de mentes nerds. E eles sabem disso.
Tanto sabem que sentem cada vez menos vergonha e mais satisfação. O que assistimos é um processo de afirmação e ressignificação dos valores desse grupo. Basta atentar para a multiplicação de camisetas com a temática geek, a proliferação dos óculos new wave (o bom e velho quadradão de resina), das estampas xadrez, sem falar no sucesso estrondoso de seriados como The Big Bang Theory e Dexter, que são, ao mesmo tempo, resultados e catalisadores desse fluxo.
Com o avanço dos tablets, notebooks e rede sociais, quase todo mundo é um pouco geek hoje em dia. Há quem goste de delimitar as diferenças entre o nerds e o geeks. Enquanto estes são aficionados por tecnologia, mas nem sempre os primeiros da classe, aqueles são, em geral, marcados por ser antissociais e portadores de elevado QI. A verdade é que os dois grupos culturais têm quase tudo em comum. Existe uma anedota interna que diz que o geek é o nerd que conseguiu socializar.
No entanto, é necessário ter cuidado com esse estereótipo – ainda forte - de nerd como pessoa espinhenta, de dentes metálicos e personalidade reclusa. Não seria esta uma representação social modelada pela mídia? O senso crítico repele simplificações desse tipo. Afinal, como se sabe, toda generalização é burra.

                                                                                                                                             Mário Cajé

Pensando o Jornalismo Internacional: o mundo é etnocêntrico

        O Jornalismo dispõe de vários segmentos dentre os quais dois se destacam pela forte relação com a Antropologia: o Cultural e o Internacional. Ambos têm sido criticados por coberturas que carecem de profundidade de análise e de entendimento quanto ao contexto do acontecimento a ser coberto.
        Em um artigo do Observatório da Imprensa, Vaniucha de Moraes diz que o “jornalismo cultural não valoriza tradições” . Além disso, segundo a jornalista, “falta densidade e reflexão sobre os movimentos culturais e seus principais atores (...), transformando o mundo em uma massa homogênea apta e educada a consumir os mesmos produtos da mídia”.

       Da mesma forma, o jornalismo internacional tende para essa questão. Atualmente, todos os setores da sociedade dependem do que acontece além das fronteiras nacionais e da interdependência entre os países, dentro da lógica de globalização. A ocupação desse jornalista que trabalha como correspondente internacional é essencial e requer reflexão e compreensão da maneira como o leitor e o próprio jornalista vêem aquela sociedade.
“É claro que o correspondente precisa entender a psique do país onde está. Isto ajuda a avaliar corretamente os acontecimentos e prever com mais acuidade seus desdobramentos. (...) Mesmo que o correspondente viva anos num país, se não tiver esse tipo de contato com o nacional típico da sociedade que cobre, ele não será capaz de compreender a alma do seu povo.” O trecho é do livro “Correspondente Internacional”, lançado este ano pelo jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, que já atuou como correspondente nos Estados Unidos em três períodos e cobriu diversos eventos em vários países.
         Assim, podemos pensar o lugar que a questão do etnocentrismo ocupa no Jornalismo. O termo é trabalhado por Everardo Rocha no texto “O que é Etnocentrismo” , de 2006, segundo o qual, ao constatarmos as diferenças, fazemos comparações com a nossa cultura, com a organização da nossa sociedade, reforçando-a, mesmo que inconscientemente. Ou seja, passamos “por um julgamento do valor da cultura do ‘outro’ nos termos da cultura do grupo do ‘eu’”.

         É impossível não sermos etnocêntricos, principalmente como jornalistas; simplesmente não há cobertura isenta. Desde a sugestão de pautas até a produção e edição das matérias, levamos em consideração linhas editoriais, preferências de chefes, ou acordos com governos, como aconteceu durante a guerra do Iraque, quando a atuação da imprensa norte-americana procurou atender tanto à demanda do público quanto à do governo. O etnocentrismo encontra, então, seu espaço em meio aos correspondentes internacionais, ao mesmo tempo em que pode evitar a massificação cultural temida no artigo de Vaniucha de Moraes.
           A cobertura de assuntos internacionais tem aumentado no Brasil e esta presença no exterior reflete a situação de maior projeção do país frente à comunidade internacional. Ainda, a qualidade mais relevante do repórter é sua capacidade de contextualizar as informações. O jornalista deve se fazer entender ao público. Em um conflito internacional, como mostrar, de acordo com a perspectiva de quem toma as decisões, o que pode acontecer quando para o país de origem do jornalista um fato não faz sentido, mas para a sociedade local faz?
          “Quem controla as notícias sobre o mundo controla o mundo”, é o que diz o jornalista Antonio Brasil em seu artigo . Com isso, alguns países não têm seus acontecimentos noticiados nas principais agências de notícias. “Seria por preconceito ou por alguma outra razão ainda desconhecida?” Afinal, as primeiras agências apareceram em países com interesses coloniais. Mais uma vez, uma visão de mundo onde um grupo é tomado como centro de tudo e todos e os outros são pensados e sentidos através dos seus valores, modelos e definições.

         Sobre isso, Andréa Carolina Schvartz Peres, em seu artigo sobre jornalismo internacional, afirma que “o noticiário internacional se constitui, assim, de notícias consideradas importantes e relevantes no âmbito internacional, e este se inscreve dentro de determinadas paisagens jornalísticas, referentes ao acontecimento, relacionadas à pessoa com quem o fato aconteceu e, principalmente, ao lugar onde o fato aconteceu.”

      Todo etnocentrismo é uma forma de pré-conceito que se dá a partir da criação de parâmetros e estereótipos. Assim como Everardo Rocha argumenta, é preciso relativizar, ou seja, “ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento, capaz de ter um fim ou uma transformação, ver as coisas do mundo como a relação entre elas.” (ROCHA, 2006) Na Antropologia, aprendemos que não há verdades universais, as verdades são contextual e culturalmente definidas, e o jornalismo internacional entende bem disso.
                                                                                                                                Roberta Amazonas


Textos utilizados para pesquisa: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/jornalismo-cultural-nao-valoriza-tradicoes
ttp://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/notas_sobre_jornalismo_internacional_no_brasil