terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pensando o Jornalismo Internacional: o mundo é etnocêntrico

        O Jornalismo dispõe de vários segmentos dentre os quais dois se destacam pela forte relação com a Antropologia: o Cultural e o Internacional. Ambos têm sido criticados por coberturas que carecem de profundidade de análise e de entendimento quanto ao contexto do acontecimento a ser coberto.
        Em um artigo do Observatório da Imprensa, Vaniucha de Moraes diz que o “jornalismo cultural não valoriza tradições” . Além disso, segundo a jornalista, “falta densidade e reflexão sobre os movimentos culturais e seus principais atores (...), transformando o mundo em uma massa homogênea apta e educada a consumir os mesmos produtos da mídia”.

       Da mesma forma, o jornalismo internacional tende para essa questão. Atualmente, todos os setores da sociedade dependem do que acontece além das fronteiras nacionais e da interdependência entre os países, dentro da lógica de globalização. A ocupação desse jornalista que trabalha como correspondente internacional é essencial e requer reflexão e compreensão da maneira como o leitor e o próprio jornalista vêem aquela sociedade.
“É claro que o correspondente precisa entender a psique do país onde está. Isto ajuda a avaliar corretamente os acontecimentos e prever com mais acuidade seus desdobramentos. (...) Mesmo que o correspondente viva anos num país, se não tiver esse tipo de contato com o nacional típico da sociedade que cobre, ele não será capaz de compreender a alma do seu povo.” O trecho é do livro “Correspondente Internacional”, lançado este ano pelo jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva, que já atuou como correspondente nos Estados Unidos em três períodos e cobriu diversos eventos em vários países.
         Assim, podemos pensar o lugar que a questão do etnocentrismo ocupa no Jornalismo. O termo é trabalhado por Everardo Rocha no texto “O que é Etnocentrismo” , de 2006, segundo o qual, ao constatarmos as diferenças, fazemos comparações com a nossa cultura, com a organização da nossa sociedade, reforçando-a, mesmo que inconscientemente. Ou seja, passamos “por um julgamento do valor da cultura do ‘outro’ nos termos da cultura do grupo do ‘eu’”.

         É impossível não sermos etnocêntricos, principalmente como jornalistas; simplesmente não há cobertura isenta. Desde a sugestão de pautas até a produção e edição das matérias, levamos em consideração linhas editoriais, preferências de chefes, ou acordos com governos, como aconteceu durante a guerra do Iraque, quando a atuação da imprensa norte-americana procurou atender tanto à demanda do público quanto à do governo. O etnocentrismo encontra, então, seu espaço em meio aos correspondentes internacionais, ao mesmo tempo em que pode evitar a massificação cultural temida no artigo de Vaniucha de Moraes.
           A cobertura de assuntos internacionais tem aumentado no Brasil e esta presença no exterior reflete a situação de maior projeção do país frente à comunidade internacional. Ainda, a qualidade mais relevante do repórter é sua capacidade de contextualizar as informações. O jornalista deve se fazer entender ao público. Em um conflito internacional, como mostrar, de acordo com a perspectiva de quem toma as decisões, o que pode acontecer quando para o país de origem do jornalista um fato não faz sentido, mas para a sociedade local faz?
          “Quem controla as notícias sobre o mundo controla o mundo”, é o que diz o jornalista Antonio Brasil em seu artigo . Com isso, alguns países não têm seus acontecimentos noticiados nas principais agências de notícias. “Seria por preconceito ou por alguma outra razão ainda desconhecida?” Afinal, as primeiras agências apareceram em países com interesses coloniais. Mais uma vez, uma visão de mundo onde um grupo é tomado como centro de tudo e todos e os outros são pensados e sentidos através dos seus valores, modelos e definições.

         Sobre isso, Andréa Carolina Schvartz Peres, em seu artigo sobre jornalismo internacional, afirma que “o noticiário internacional se constitui, assim, de notícias consideradas importantes e relevantes no âmbito internacional, e este se inscreve dentro de determinadas paisagens jornalísticas, referentes ao acontecimento, relacionadas à pessoa com quem o fato aconteceu e, principalmente, ao lugar onde o fato aconteceu.”

      Todo etnocentrismo é uma forma de pré-conceito que se dá a partir da criação de parâmetros e estereótipos. Assim como Everardo Rocha argumenta, é preciso relativizar, ou seja, “ver as coisas do mundo como uma relação capaz de ter tido um nascimento, capaz de ter um fim ou uma transformação, ver as coisas do mundo como a relação entre elas.” (ROCHA, 2006) Na Antropologia, aprendemos que não há verdades universais, as verdades são contextual e culturalmente definidas, e o jornalismo internacional entende bem disso.
                                                                                                                                Roberta Amazonas


Textos utilizados para pesquisa: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/jornalismo-cultural-nao-valoriza-tradicoes
ttp://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/notas_sobre_jornalismo_internacional_no_brasil

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