É interessante como a indústria cultural norte-americana é capaz de influenciar no constructo simbólico que temos em relação a alguns espaços sociais. A escola é um bom exemplo disso. Conservadas as devidas proporções, é comum exportarmos muitos rótulos que assistimos nos filmes teen que retratam o universo da High School. No entanto, uma das questões valiosas é: Até que ponto essa segmentação tribal urbana é compatível com a nossa cultura? Vale a pena pensar sobre isso. Mas para além dessa questão, o fato é que o “valor” de cada uma dessas “tribos” é uma variante histórico-social. Um exemplo considerável é o dos nerds. Na “cadeia alimentar” das escolas americanas, esse grupo cultural sempre se viu estigmatizado e marginalizado até que, contemporaneamente, emergiu ao mainstream, aos holofotes.
É preciso ter cuidado com o próprio termo “tribo urbana”, já que ele é comumente usado para designar um grupo cultural que divergente em relação a um pretenso padrão de normalidade. Não passa, em última análise, de uma atitude arbitrária e etnocêntrica. O ideal é ter em mente que, na falta de uma palavra adequada, é possível lançar mão do termo enquanto metáfora, e não como categoria, como alerta o antropólogo José Guilherme Magnani.
Em geral, opta-se pelo mais simples: etiquetar como subcultura. Mas este não seria outro termo deficiente? O próprio sufixo confere inferioridade, juízo de valor, hierarquia e todo esse conjunto de sofismas que atentam contra uma atitude de relativismo cultural, defendida com propriedade pelo antropólogo Roberto da Matta em suas produções.
A mídia é, em grande medida, responsável pela forma como algumas comunidades culturais são valorizadas, enquanto outras não. Ser nerd na escola quase sempre foi sinônimo de ser rejeitado. Fechados num universo de games, RPG, cartoons, ficção científica e programação de computadores, os nerds viviam como coadjuvantes na escola. Graças à imersão recente na mídia de alguns ícones desse grupo cultural, um novo processo está em curso. Trata-se de um ciclo de valorização de elementos da cultura geek e nerd. E não há como entendê-lo minimamente sem associá-lo à forma como a indústria do entretenimento influencia os interesses das pessoas.
Um exemplo interessante é o de Mark Zuckerberg. O atual “Homem do Ano” da revista Time é a marca registrada do que muitos jovens querem ser. Sua trajetória reforça a ideologia de que, após uma adolescência de bullying, excentricidade e isolamento social, o nerd, quando adulto, será capaz de empreender e inovar, alcançando sucesso profissional e prestígio midiático. Na verdade, os exemplos são fartos: Steve Jobs, Bill Gates, Larry Page e Sergey Brin, etc. É tudo uma questão de vingança e que leva tempo. Mas vale a pena esperar e aturar a tortura de sempre ser o último a ser escolhido nas partidas de qualquer coisa.
Graças à terceira revolução industrial, o processamento de dados e as tecnologias da informação têm sido cada vez mais prestigiados, o que pode explicar em parte as alterações nesse jogo sociocultural. A busca acirrada e a luta ferrenha pela manutenção dos talentos por parte das empresas contemporâneas têm sido marcante na lei da oferta e procura de mentes nerds. E eles sabem disso.
Tanto sabem que sentem cada vez menos vergonha e mais satisfação. O que assistimos é um processo de afirmação e ressignificação dos valores desse grupo. Basta atentar para a multiplicação de camisetas com a temática geek, a proliferação dos óculos new wave (o bom e velho quadradão de resina), das estampas xadrez, sem falar no sucesso estrondoso de seriados como The Big Bang Theory e Dexter, que são, ao mesmo tempo, resultados e catalisadores desse fluxo.
Com o avanço dos tablets, notebooks e rede sociais, quase todo mundo é um pouco geek hoje em dia. Há quem goste de delimitar as diferenças entre o nerds e o geeks. Enquanto estes são aficionados por tecnologia, mas nem sempre os primeiros da classe, aqueles são, em geral, marcados por ser antissociais e portadores de elevado QI. A verdade é que os dois grupos culturais têm quase tudo em comum. Existe uma anedota interna que diz que o geek é o nerd que conseguiu socializar.
No entanto, é necessário ter cuidado com esse estereótipo – ainda forte - de nerd como pessoa espinhenta, de dentes metálicos e personalidade reclusa. Não seria esta uma representação social modelada pela mídia? O senso crítico repele simplificações desse tipo. Afinal, como se sabe, toda generalização é burra.
Mário Cajé








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