Você já parou para pensar em como os jornalistas escolhem o que é notícia? Como em meio de uma redação fervendo e um dia de trabalho exaustivo os profissionais podem parar para deliberar sobre o que entra no seu jornal? Para isso existem truques: os valores-notícia. Parâmetros definidos por grandes teóricos da comunicação e ensinados na faculdade ou no próprio ambiente de trabalho. Mas o que define esses valores e como afetam na percepção do mundo que o jornalismo cria?
Vamos simplificar: os valores-notícia são como ferramentas que ajudam a grande fábrica “jornalismo” a escolher as informações mais relevantes. O fato é que esses elementos se tornaram imprescindíveis desde que o jornalista começou a lutar contra o tempo. É, amigos, o tempo, para esses profissionais, é o pior inimigo do senso crítico. Por ter que apurar tudo cada vez mais rápido, para dar a informação primeiro, o jornalista passou a usar os valores-notícia como regras básicas para saber o que pôr ou não no seu jornal. Então, de maneira cada vez mais mecânica, os fatos só precisam se encaixar em uma (se for em mais de uma então, é capa!) dessas condições. Como exemplo, citaremos alguns desses níveis de noticiabilidade, segundo o teórico da comunicação Mauro Wolf:
I - O grau e o nível hierárquico dos envolvidos no acontecimento noticiável
(WOLF, 1995, p. 180, grifo do autor), quanto mais envolvimento com pessoas,
instituições e países de elite o fato tiver, mais noticiável parece aos olhos do jornalista.
II - O impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional (idem, p. 181, grifo do
autor), as técnicas jornalísticas consideram significativo um fato que diz respeito ao
interesse do país. Mais comumente chamado de valor de proximidade, na linguagem
jornalística
III - Quantidade de pessoas que o acontecimento (de fato ou potencialmente)
envolve (idem, p. 182-183, grifo do autor), a visibilidade é destacada como o principal
valor ao noticiar um acidente que envolva muitas pessoas.
Então, até que fica bem fácil decidir o que é notícia, você não acha? Mas, se pararmos para pensar... Será justo um assassinato ser noticiado por ter acontecido na Inglaterra ou nos EUA, com uma pessoa mais ou menos importante, e um caso parecido não virar notícia por ter acontecido no Líbano com um agricultor? Impressiona o fato de algumas pessoas viverem a sua vida inteira de maneira digna e não terem o assassinato anunciado por não ser um político, ou por não ser inglês ou americano, ou por não ter morrido em uma chacina junto com outros 50 mil agricultores libaneses. Afinal, como classificar o quão importante é uma vida? E é justamente aí, que entra um conceito bastante conhecido na antropologia: o etnocentrismo, o julgar o “outro” através da própria “cultura”, estabelecendo valores e hierarquias.
O fazer notícia está impregnado de etnocentrismo.E isso fica bem claro quando olhamos os valores-notícia, que são produtos e produtores de rótulos, de valorações sociais e culturais. Ora, se o jornalismo, dito quarto poder, se propõe a ser imparcial e mostrar os fatos que acontecem no mundo, com a base em valores-notícia cheios de etnocentrismo, só ajuda a perpetuar pré-conceitos. E é justamente assim que o agricultor morre sem ninguém saber. Afinal, quem se importa com o Oriente Médio, não é mesmo? Todos vivem morrendo por lá!
Padrões valorativos como o do agricultor libanês podem ser encontrados aqui mesmo no nosso país. O Carnaval é um ótimo exemplo. É muito comum sair na grande mídia notícias e comentários sobre os desfiles do Rio de Janeiro e São Paulo. Todos os telejornais passam pedaços do desfile. Revistas de fofoca comentam das roupas das passistas e rainhas de bateria. Celebridades dão entrevistas sobre como manter o corpo sarado para a Avenida. Agora te perguntamos, caro leitor: cadê toda essa euforia quando o assunto é Parintins? O festival folclórico faz tão parte da cultura brasileira como o Carnaval. Ah... Esquecemos... Isso aí é da região Norte. Ninguém se importa com a região Norte. O Sudeste é muito mais importante. A cultura é mais rica! Parintins é digno somente de umas notinhas nos jornais. Quem sabe uma reportagem especial no Globo Repórter. Já dá até para ouvir a voz de Sérgio Chapelin ecoando em nossos ouvidos: “Parintins: O festival desconhecido por muitos que alegra o coração dos Amazonenses. O que há de tão especial nessa cultura tão distante? Não perca, hoje à noite, no Globo Repórter”.
E é assim, que chegamos a uma conclusão um pouco pessimista, sabemos: o jornalismo mostra o mundo de poucos. Tira conclusões de que o interesse do público está nos países de elite, em celebridades, no Ocidente. Julga a partir do simples fato de escolher uma notícia. Valora pessoas, lugares e os lugares das pessoas no mundo. Afinal de contas, pra que se preocupar em pensar um pouco mais se é muito mais fácil manter o padrão que já está? Padrão este em que os seres humanos são escolhidos por dinheiro e por nacionalidade para estarem no topo noticiável por serem importantes. E a pergunta que fica é: importantes para quem?
Bárbara Fernandes e Laís Carpenter








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