terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entrevista com a professora Sylvia Moretzsohn

Professora Sylvia Moretzsohn
         Antes do dia 13 de novembro deste ano, os grandes meios de comunicação do país já sabiam qual seria a principal pauta do domingo: a ocupação da Rocinha. Desde 2008, quando foi instalada no morro Santa Marta a primeira Unidade de Policia Pacificadora (UPP) do Rio de Janeiro, a imprensa passou a explorar mais sobre as favelas cariocas. Após a extensa cobertura pelos jornais da ocupação do Complexo do Alemão, em 2010, a imprensa dedicou-se mais ainda na cobertura da ocupação pelo Estado da maior favela da América Latina que é a Rocinha. Para Sylvia Moretzsohn, professora de jornalismo da Universidade Federal Fluminense, uma coisa permanece a mesma na cobertura jornalística sobre as UPPs: a ausência de uma problematização sobre essa nova política de segurança adotada pelo estado do Rio de Janeiro. Para ela, as abordagens feitas sobre a cultura da população da favela não passa de uma forma de etiquetar: “Posso dizer que o jornalismo costuma levar seus preconceitos quando vai cobrir fatos relacionados a esses locais. É uma visão etnocêntrica”. Doutora em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro  e membro do Conselho editorial da revista Discursos Sediciosos - crime, direito e sociedade, do Instituto Carioca de Criminologia, Sylvia também fala nesta entrevista sobre os desafios do jornalista para evitar os estereótipos e preconceitos, muitas vezes, enraizados pelos grandes meios de comunicação.

1.    Uma das últimas grandes coberturas dos meios de comunicação foi a ocupação da Rocinha. Como você vê a abordagem que comumente se faz desses acontecimentos?
Eu acho que, nessa cobertura da Rocinha, ficou muito evidente o apoio às ações policiais relacionadas à política de implantação das UPPs, da mesma forma como antes a imprensa apoiava a política de confronto. A “ocupação pacificadora” tem a ver com o circuito olímpico e favorece a especulação imobiliária, sem dúvidas. Alguma coisa está estranha nessa guinada nas políticas de segurança e nunca nenhum jornal se preocupou em problematizar a questão. No caso recente da Rocinha, isso ficou evidente: o que mais se via eram termos como: luta do bem contra o mal, ocupação de território, devolução de território. Se houvesse jornalismo de fato, haveria uma preocupação com o contraditório. Quando se conversa com moradores desses locais, eles contestam a melhoria trazida pelas UPPs, quando comparadas com o domínio do “poder paralelo”, que é um termo que particularmente eu não gosto. Nenhum poder desses se estabelece sem articulação com o Estado, através de mecanismos como a corrupção policial. A favela é complexa: não é só o que traz o “Central da Periferia” nem, por outro lado, só o que mostra o “Meninos do Tráfico”. A favela é uma coisa e outra. E os jornais não têm conseguido captar isso, o que tem a ver com a capacidade do jornalista e com os interesses da imprensa em mexer na lógica dual, binária, típica do senso comum, que não vem hoje.

     Pode ter havido uma construção jornalística em que não foram levadas em conta a realidade e a cultura dos moradores?
Quem cobre a favela, não a conhece, na maioria dos casos. O que, de certa forma, é bom porque gera um distanciamento interessante. O problema é que essas pessoas não têm, não querem ter ou não podem ter - graças às orientações editoriais - a possibilidade de enxergar a complexidade do mundo. E daí se reafirmam os estereótipos.
Outro problema é pensar na “cultura da favela”. A favela está totalmente entrelaçada na cidade. A mídia muitas vezes enquadra as pessoas em categorias artificiais. A favela em geral é urbana. É um território integrado, até mesmo pela geografia do Rio. Mas, falar em “cultura da favela” é muito relativo. Acho artificial, não passa de uma forma de etiquetar. As pessoas de lá convivem em vários ambientes sociais e absorvem muito deles, reproduzindo-os em seu cotidiano. Mas posso dizer que o jornalismo costuma levar seus preconceitos quando vai cobrir fatos relacionados a esses locais. É uma visão etnocêntrica.

         Essa atitude da mídia poderia ser diferente?
A cobertura poderia ser diferente sim, mas é preciso ter em mente que são fortes os interesses das empresas de mídia. Eu, particularmente, fico agoniada pensando: “Onde vou ler algo que me satisfaça?” Esse mesmo secretário de segurança era partidário da política de confronto e, de repente, adota a política de evitar vítimas, de fazer uma limpeza. É preciso se fazer algumas perguntas: Como a polícia enxerga o morador do morro? Da mesma forma que alguém do “asfalto”? Qual o papel histórico da polícia? Por que a polícia na esquina da minha casa está lá pra proteger a mim e a meus bens e a polícia no morro está lá para vigiar e punir? A relação com os policiais varia de acordo com os diferentes espaços sociais.

      Qual a principal reflexão sobre a polarização bem vesus mal na cobertura das ocupações da polícia nos morros cariocas?
Existe a ideia de que os favelados são potencialmente perigosos. É preciso entender, porém, que a polícia em si não resolve os problemas, já que se trata de uma questão de vulnerabilidade social muito mais ampla. A questão é que estamos inseridos numa esfera de despolitização ampla e a mídia se envolve mais com a técnica do que com a reflexão. A velocidade de produção e a concorrência empresarial ajudam a reproduzir os estereótipos, mas é também uma questão de formação do jornalista.

  Qual seria a importância de o jornalista buscar uma atitude de negação de preconceitos e estereótipos na sua prática profissional?
O jornalista que se propõe a se despir dos preconceitos certamente irá prestar um serviço de muito mais qualidade à sociedade. Os desafios são, sobretudo, o confronto com os interesses dos conglomerados de informação e a necessidade de fazer um esforço intelectual, o que nem sempre é tão fácil.


                                                                                                     Sandra Mara Amancio e Mário Cajé

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